Antes de mais nada, o objetivo deste artigo não é defender o Lula, o PT, ou ideologia nenhuma. Mesmo sabendo que posso ser tachado de “comunista”, afirmo que meu partido é o da Saúde Bucal. O esforço de análise desse artigo é justamente a defesa do Programa Brasil Sorridente e o melhor entendimento sobre seu papel na sociedade brasileira. Na minha humilde opinião, o Brasil Sorridente é um marco na saúde bucal no Brasil e no mundo. Receio que muitos dos meus colegas não compartilhem dessa visão. Não deixe que isso seja uma barreira para que você continue a leitura.
O presidente Lula fez um discurso que sofreu uma tentativa de inversão em campanhas de desinformação fomentadas pelos seus opositores após acompanhar a entrega de 400 novas unidades móveis com consultórios odontológicos em Sorocaba, no estado de São Paulo. Tentaram colar a pecha do racismo ao presidente de forma totalmente inescrupulosa. A tentativa de transformação de um golasso para a saúde bucal brasileira em um gol contra. Entenda como política e saúde bucal se misturam e porque ainda muitos dentistas não enxergam o potencial do Brasil Sorridente.
Um breve histórico do Programa Brasil Sorridente
O Brasil Sorridente foi lançado em 2004, no primeiro mandato do presidente Lula, como uma política nacional de saúde bucal dentro do SUS. Até então, o atendimento odontológico público era bastante limitado, concentrando-se quase sempre em extrações, procedimentos de urgência e uma presença de dentistas nas escolas de forma bastante descentralizada. Assim, com a criação desse programa, o Brasil passou a contar com Equipes de Saúde Bucal na Atenção Básica nas UBSs – Unidades Básicas de Saúde e nos CEOs – Centros de Especialidades Odontológicas, que oferecem tratamento de canal, de gengiva, dentaduras, extrações e outros procedimentos.
Consequentemente, essa estrutura foi um dos pilares que ajudou o Brasil a evoluir de um país com alta prevalência de cáries para uma condição de baixa prevalência, segundo critérios atuais da OMS – Organização Mundial de Saúde. Posteriormente, em 2023, o programa foi transformado em lei federal, consolidando-se como uma política de estado permanente — algo bastante raro na área da saúde bucal mundo afora.
Em comparação, antes da implementação do Brasil Sorridente, os atendimentos limitavam-se a uma rede pública com assistência odontológica extremamente reduzida. A gente sabe também que a distribuição de dentaduras foi utilizada muitas vezes por políticos como moeda de troca por votos, em várias cidades do interior do Brasil. Nesse sentido, quantas histórias já ouvimos de pessoas que tiveram TODOS seus dentes arrancados de forma precoce e que foram presentadas com prótese totais em troca de votos? Como se essa mutilação gratuita fosse uma benesse. O Brasil ainda carrega o estigma de ser o país dos desdentados e ao mesmo tempo ter o maior número de dentistas do planeta Terra.

Segundo EAP Goiás que usou dados do CFO – link – https://eapgoias.com.br/quantos-dentistas-tem-no-brasil/
Na pandemia houve uma tentativa de desmantelamento do Sistema Único de Saúde. Um grande corte de investimentos na educação e no fomento a pesquisa. Outro fato que muito gente tende a esquecer.
Especialmente entre os anos de 2016 e 2022, governos não promoveram ações estruturantes de mesmo alcance nacional, o que resultou em retrocessos no acesso, sem dar continuidade ao Brasil Sorridente. Assim, houve uma queda expressiva de repasses de verbas, diminuição de equipes de saúde bucal e até uma tentativa de troca política no cargo da coordenação de saúde bucal em 2020. Ou seja, no meio da pandemia de Covid-19 resolveram detonar com o que restava do Brasil Sorridente. Um especialista em eventos, não dentista, havia assumido a pasta da coordenação geral de saúde bucal para tempos depois ser exonerado por pressão de associações, conselhos e dos próprios dentistas.
Exemplo de como a Saúde Bucal era tratada antigamente com projetos anunciados que nunca foram cumpridos como a Implantação de AMAs Sorriso em São Paulo em 2010 – Leia Aqui
O discurso do presidente Lula na entrega das unidades móveis odontológicas foi racista?
Retornamos então para o final de agosto de 2025. Na presença do atual ministro da saúde, Alexandre Padilha, de outros políticos locais e do presidente do CFO – Conselho Federal de Odontologia, Claudio Miyake, o presidente Lula fez o seguinte discurso (vou colar a parte que foi utilizada por gente sem letramento racial para tentar colar uma acusação de racismo na fala:)
“…Uma vez tinha um ministro da agricultura (…) que foi participar de um congresso na Alemanha (…) e ele fez uma revista maravilhosa, bonita … tinha uma capa com uma senhora bonitona. Devia ser filha de italiana ou de alemão no Rio Grande do Sul ou Santa Catarina, com a bochecha bem vermelha, sorrindo (…) e do lado dela um senhor negro, alto, sorrindo sem nenhum dente aqui na boca.
Eu chamei o ministro e perguntei: ‘Escuta aqui. Por que você colocou essa fotografia desse senhor negro sem dente? Você acha isso bonito? Isso é fotografia para você colocar representando o Brasil no exterior? Um cara sem dente e ainda negro. Você não acha que isso é preconceito?’ Aí eu lembrei do Joãozinho Trinta, carnavalesco que morreu em 2011: ‘Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de coisa boa’. Eu falei para ele [o ministro]: ‘Você pode anular essa revista, joga essa página fora e faz uma foto de um cara com dente’. E aí eu resolvi criar o Brasil Sorridente.”
O chat GPT me ajudou a criar uma imagem de como poderia ser a foto da revista, tal qual foi descrita pelo presidente Lula

Discurso completo para quem se interessar – AQUI
Acima de tudo, a oposição mais ferrenha trabalha muito com fake news, inversão de conceitos, vídeos cortados e foi exatamente isso que aconteceu dessa vez. Citando três exemplos, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, a senadora Damares Alves e o ex deputado e ex procurador da Lava Jato, Deltan Dallangnol postaram o vídeo do discurso com partes cortadas. Forçaram a barra para vender a ideia de que Lula teve uma fala racista. Basta não ser um analfabeto funcional e ler o trecho completo, ou ouvir o vídeo sem cortes para entender o que ele quis dizer. Uma foto de um homem negro sem dentes reforçaria o estereótipo racista em uma revista de propaganda do governo no exterior.
Uma questão de semiótica como muitas professoras e militantes de movimentos negros classificaram nas redes sociais. Lula enxergou um racismo estrutural que colocaria um negro desdentado em uma foto de revista de uma propaganda do governo no exterior. E pediu que fosse corrigido, escolhendo uma foto de um homem negro com dentes.
Deixe seu comentário para debatermos esses assuntos
Ao mesmo tempo, o Brasil Sorridente é uma resposta direta às questões de desigualdade racial que temos no Brasil, segundo Anielle Franco, ministra da igualdade racial. Ainda segundo ela, a crítica do Lula foi em relação ao estigma racista que é perpetuado por imagens como a citada na discurso e não criticando o indivíduo negro sem dentes. Aqui está a ligação direta entre Saúde Bucal e o objetivo do Brasil Sorridente. Quem possui um mínimo de letramento sobre isso escuta o discurso e entende o que foi dito. O pior de tudo é que os perfis da oposição são fortes e muito engajados nas mentiras, que se espalham como pólvora. E isso acaba sendo um ataque à própria Odontologia e ao que realmente importa nesse evento. Esse é meu ponto. A oposição, claro, será oposição sempre, mas diminuir uma ação como o Brasil Sorridente a um discurso racista traz uma grande perda para todos nós. Isso enfraquece a política como um todo.
Existem problemas no Brasil Sorridente e no SUS?
Inúmeros. Ainda há falta de acesso, falta de materiais em alguns locais e falta de interesse de prefeituras com o Programa. Outro problema muito citado pelos dentistas é o baixíssimo salário pago em alguns concursos de algumas regiões. Acredito que venha daí o ódio ou até a desconfiança de muitos dentistas em relação ao Brasil Sorridente. Caso você esteja inserido ou inserida em uma bolha de informações com viés mais para a direita, é provável que você não tenha acesso a todo discurso ou nem se importe com isso. Assim também, muitas pessoas não chegam até esta parte do texto. O ódio fomentado nessas postagens é tanto que tira a vontade até da leitura de outras fontes.
Apesar disso, os baixos salários oferecidos em concursos públicos a dentistas é uma outra luta que está sendo travada no âmbito do Poder Legislativo. Em destaque, o grupo Dentistas do SUS faz um trabalho primoroso de defesa do piso salarial e já avançou bastante pela causa. Nesse sentido, o movimento caminha para o objetivo do reajuste do piso salarial dos Médicos e Cirurgiões Dentistas seguindo uma lei dos anos 1960, com uma grande gama de representantes e capilaridade. Recentemente, vimos nas redes do movimento que o Ministro da Saúde Alexandre Padilha marcou encontro com eles para discutir essa demanda. Em suma, há abertura para conversa. Existem caminhos. É preciso estratégia, perseverança e paciência.
Conforme já constatamos: saber conversar, convencer e fazer demandas aos órgãos certos. Ficar apenas reclamando dentro de um grupo de whatsapp é pouco produtivo.
O Brasil Sorridente como elo para solução do excesso de profissionais e a falta de acesso da população ao tratamento odontológico
À partir de conversas que tivemos no nosso Podcast, o PodSondar com o Dr. Gilberto Pucca, coordenador geral de saúde bucal na época inicial da implantação do programa Brasil Sorridente e com o Dr. Claúdio Miyake, hoje atual presidente do Conselho Federal de Odontologia, uma das soluções para o excesso de profissionais cirurgiões dentistas que temos no Brasil está no SUS. Sob o mesmo ponto de vista, seria a união do útil ao agradável. Dessa forma, ampliar o programa Brasil Sorridente dando mais acesso a população mais vulnerável e necessitada de saúde bucal através da contratação de todo esse contingente de dentistas que as faculdades despejam no mercado.
Entretanto, é preciso melhorar os salários dos dentistas e da equipe auxiliar, pensar em planos de carreira, implantar concursos públicos sérios que não sejam contaminados por indicações políticas pontuais, além de aumentar o acesso da população. Tudo isso leva tempo e dá muito trabalho, com entrelaçamento de vários setores.
Acredito, em suma, que estamos no caminho certo. Contudo, por motivos de ideologia política, os dentistas em sua maioria não estão na mesma frequência das ações do Brasil Sorridente. A desinformação afasta os dentistas desse objetivo. Hoje o SUS já é o maior comprador de equipamentos odontológicos do Brasil. Além disso, também é o que mais contrata dentistas no país. Estamos sim com a escova e o pasta de dente na mão. Agora, individualmente, temos que assumir um grande papel: cobrar o governo federal, governo municipal, estadual, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, coordenador de saúde bucal e o Ministro da Saúde. Sobretudo, somos muitos.
E aí vem meu momento Poliana: Somos 441.000 dentistas mais equipe auxiliar. Igualmente unidos por uma causa nobre e estruturada, quem sabe deixamos a ideologia de lado e focamos no que realmente importa: a melhora da saúde bucal da população brasileira.
Movimento Dentistas do SUS – Se você quiser ajudar e contribuir – CLIQUE AQUI
Episódio sobre o Dentistas do SUS
Um Abraço,
Luiz Rodolfo May
Equipe Dicas Odonto
